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Afinal, o que é Infraestrutura Verde?

A urbanização cada vez mais crescente, geradas pelas novas demandas de oportunidades e consumo, fomenta uma ocupação urbana que resulta no excesso de impermeabilização do solo e conduz a uma série de impactos, especialmente no ciclo hidrológico. Como forma de atenuar tais efeitos, tem-se a Infraestrutura Verde. Mas afinal, o que são?

Pode-se dizer que a Infraestrutura Verde é uma alternativa ao manejo da água da chuva de forma econômica, sustentável e amigável ao meio ambiente. Seu principal objetivo é o reaproveitamento da água da chuva, através da infiltração (evapotranspiração), captura e reuso, recuperando a hidrologia natural de uma área. Sua aplicação em áreas urbanas visa a conservação da biodiversidade através da resiliência dos ecossistemas, contribuindo simultaneamente para a adaptação às alterações climáticas e reduzindo a vulnerabilidade da ocorrência de catástrofes naturais em áreas urbanas.

Alterações do ciclo hidrológico de acordo com o nível de urbanização.
Baptista, 2015, p. 9

Segundo a ONU, espera-se que em 2050 dois terços da população mundial estarão vivendo nas cidades. E enquanto as cidades são o eixo central da produção e do consumo nacional, visto que geram riquezas e oportunidades, elas também geram doenças, crimes, poluição, pobreza e alteram os sistemas naturais. Áreas urbanizadas possuem superfícies impermeáveis (telhados, vias e calçadas), que impedem que as águas pluviais infiltrem nos solos ou evaporarem através vegetação. Cria-se assim um desequilíbrio no ciclo natural da água e estimula-se o surgimento das chamadas “ilhas de calor”, pois as áreas impermeáveis transferem e refletem o calor para a atmosfera do seu entorno.

Segundo Gorm Dige, gestor de projetos ambientais da Agência Europeia do Ambiente (AEA), as infraestruturas verdes asseguram múltiplas funções e benefícios num mesmo espaço. As funções podem ser ambientais (conservação da biodiversidade ou adaptação às alterações climáticas), sociais (drenagem de água e espaços verdes) e econômicas (criação de emprego e valorização dos imóveis). Seu contraste com as soluções baseadas nas chamadas infraestruturas cinzentas (como sistema de drenagem ou o transporte), torna sua implantação apelativa, visto seu potencial para resolver vários problemas simultaneamente.

Fundamentalmente, a preservação e restauração da paisagem natural são componentes essenciais da Infraestrutura Verde. Seus ganhos se tornam mais evidentes em áreas urbanas e suburbanas, onde o espaço verde é limitado e o dano ambiental mais expressivo. E justamente por isso sua aplicação deve ser considerada ainda no processo de planejamento, já que condomínios e loteamentos novos geram um grande impacto ambiental nas bacias hidrográficas onde serão implantados.

Em uma macro escala, suas vantagens incluem a redução e retenção dos volumes de água da chuva e a diminuição do pico de escoamento (volume de água em determinada área num período de tempo), utilizando a capacidade natural do solo e dos vegetais de absorção e infiltração da água. Por aumentar a área verde, essas técnicas elevam as taxas de infiltração e evapotranspiração, reduzindo substancialmente ou completamente a quantidade de água a ser conduzida para os corpos d´água no instante de uma chuva.

Já em uma uma escala menor, sua prática inclui estruturas que criam uma paisagem hidrologicamente multifuncional, alternando entre os ganhos paisagísticos e funcionais. Por meio da implantação de estruturas como jardins de chuva, pavimentos permeáveis, telhados verdes, bacias de detenção (liberam a água ao longo de um determinado período), bacias de retenção (lagoas, por exemplo), árvores com área de desenvolvimento de raízes, jardins verticais, brise vegetal e cisternas de captação de água da chuva é possível fazer uso do seu sistema.

Outro ponto a ser considerado, é que sua implantação aumenta a recarga de aquíferos, já que a capacidade de infiltração do solo eleva o volume de recarga do lençol freático, que é responsável por cerca de 40% da água que mantém o nível dos córregos e rios. A técnica de Infraestrutura Verde permite armazenar o volume excedente de água por um determinado tempo (cerca de 24 horas), diminuindo o volume que chega nos corpos hídricos no instante de uma chuva. Dessa forma, evita-se a inundação e os pontos de alagamento. É válido ressaltar que o solo além de infiltrar o excedente hídrico, evita o transporte de poluentes através da rede tradicional de drenagem. A vegetação existente realiza, naturalmente, a retenção e absorção dos poluentes, de forma a quebrar suas moléculas que presentes na água ou nas superfícies.

Em relação às alterações climáticas, sabe-se que as grandes cidades podem ser até 12 °C mais quente do que as localizadas no campo. Estas estruturas também melhoram a qualidade do ar, já que a vegetação em áreas urbanas realizam uma filtração do material particulado, realizando em paralelo, a absorção de determinados poluentes e o resfriamento  do seu entorno.

Outro benefício considerável é o aumento das áreas verdes, fundamentais para o bem estar das pessoas. Um crescente número de estudos no vem relacionando o espaço verde e a vegetação com a saúde humana. Outra questão considerável é que, as áreas verdes aumentam o valor dos imóveis, pois as propriedades próximas a elas alcançam valores até 30% mais altos, quando comparados a ruas não arborizadas.

Para entendermos a importância de sua aplicação, inúmeros países utilizam de seus conceitos nas etapas de planejamento e desenho urbano. Nos EUA, utiliza-se os preceitos do LID (Low Impact Development) para aplicação prática e teórica (por meio da educação ambiental) para o uso deste sistema. No Reino Unido tem-se o Susdrain e na Austrália temos o WSUD (Water Sensitive Urban Design).

Como maior exemplo de sua aplicação, tem-se a cidade de Portland, nos EUA. Há cerca de vinte anos a cidade de Portland tem utilizado uma combinação de políticas, educação pública e projetos locais para incorporar as funções naturais na infraestrutura existente da cidade, de forma a complementar, aprimorar e fortalecer as bacias hidrográficas. A cidade criou, então, um sistema de infraestrutura verde para melhorar seu ambiente, reduzir os riscos em épocas de chuva e promover a filtragem da água de forma natural, com diferentes tipologias como jardins de chuva, canteiros pluviais, biovaletas (ou valetas de biorretenção vegetada), pavimentação permeável, telhados verde, entre outros.

Esquema de várias técnicas implantadas numa mesma rua.

Após 10 anos, as instalações de Infraestrutura Verde já tinham como resultado a redução do fluxo de picos de chuva em 85%, o volume de água escoada nas áreas impermeáveis em até 60%, a redução da poluição do final da tarde entre 80 e 95% e em 2006, a infiltração do volume de água das chuvas que chegavam à superfície já era de 95%. Foram implantadas mais de 100 mil metros de biovaletas em estradas, o plantio de mais de 105 mil novas árvores e arbustos em seis sub-bacias e uma sensibilização pública envolvendo 22 mil estudantes e 10 mil participantes comunitários, com a distribuição de publicações sobre o assunto. Além disso, os EUA possuem uma espécie de “Google Maps” da Infraestrutura Verde, onde é possível ver que tipo de estrutura foi implantada em dada localidade, suas imagens e algumas informações de projeto.

Como exemplo mais recente de como a aplicação deste tipo de infraestrutura poderia evitar catástrofes, tem-se a cidade do Rio de Janeiro. Desde o início do ano fortes chuvas vem atingindo a cidade, ocasionando alagamentos, deslizamentos e mortes.

Por fim, podemos dizer que o conceito de infraestrutura verde é relativamente novo e complexo, não existindo ainda uma definição consensual do mesmo, nem análises suficientes e indicadores quantitativos. Em consequência, os decisores políticos têm grande dificuldade em integrá-lo nas diversas políticas. Também pode parecer complicado justificar a opção pelas Infraestruturas Verdes do ponto de vista financeiro, mas, para além dos múltiplos benefícios já citados, elas são frequentemente menos caras, mais sólidas e mais sustentáveis.

E você, sabia dos múltiplos benefícios que a Infraestrutura Verde pode trazer para o espaço urbano? Já viu a aplicação prática dessas estruturas? Conta pra gente!

Até o próximo post!

REFERÊNCIAS

https://www.eea.europa.eu/pt/articles/infraestrutura-verde-viver-melhor-gracas

https://www.cidadessustentaveis.org.br/boas-praticas/projetos-de-infraestrutura-verde-em-portland

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/04/08/tempo-muda-no-rio-com-previsao-de-chuva-raios-e-ventos.ghtml

BAPTISTA, L.F.S. Aspectos ambientais, sanitários, hidrológicos e urbanísticos na concepção e aplicação do LID (Low Impact Development) em microbacia na  UFSCar. 2015. 175 p. Dissertação. (Mestrado em Engenharia Urbana). Programa de Pós Graduação em Engenharia Urbana – PPGEU, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2015.

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