Cidade Planejamento Urbano

O que acontece quando crianças e jovens são envolvidos no planejamento urbano?

Um programa no Colorado incorpora ideias de crianças e jovens no planejamento urbano visando espaços mais amigáveis, verdes e inclusivos.

Autora: Jill Sutie, publicado na Greater Good Magazine em 11/03/2019

Tradução: City 4Us

Fonte: https://www.curbed.com/2017/12/12/16768096/children-cities-urban-planning-arup

Como seriam as cidades se as crianças tivessem uma palavra para dizer sobre o seu design?

Elas certamente seriam mais amigáveis, diz Marta Mintzer. A diretora do programa Growing Up Boulder tem engajado crianças e jovens de diferentes idades para ajudar planejadores urbanos a pensar de forma inovadora e criar espaços mais inclusivos para a sua comunidade.

Em uma entrevista concebida à Jill Sutie para a Greater Good Magazine, Mintzer compartilhou sua paixão pelo tema e falou um pouco sobre o que acontece quando se dá voz as crianças. Segue abaixo a entrevista.

Porque você acha importante incluir crianças no planejamento urbano?

As crianças valorizam as coisas que muitas vezes são deixadas de lado pelo interesse corporativista. Por exemplo, em cada trabalho que já fizemos com crianças, elas sempre (especialmente as mais novas) solicitam mais natureza em seus espaços – mais animais, plantas, flores e cores.

Além disso, envolver as crianças traz benefícios para elas. As crianças percebem que tem voz em suas próprias comunidades e isso contribui para que elas continuem engajadas. Como exemplo, fizemos uma pesquisa com algumas crianças da sexta série que trabalharam conosco 3 anos atrás no redesenho de uma área específica da cidade e 100% delas disseram que as crianças deveriam sempre estar incluídas em processos como esses e 71% disseram que, agora, é mais provável que se empenhem no engajamento cívico no futuro – seja em casa, na escola ou na cidade.

Como é uma cidade amigável para crianças?  

Do que eu aprendi com as crianças, isso envolve lugares para os quais elas podem andar sozinhas e sem depender de um adulto. Então, isso significa por exemplo, ciclovias e percursos de pedestres segregados. Significa também “olhos nas ruas”, com construções voltadas para as vias e pessoas povoando-as. Assim, as famílias podem se sentir confortáveis ao deixar seus filhos andarem em lugares. Isso também significa mais espaços verdes onde as pessoas vivem.

Eu não sei sobre você mas quando eu era criança, íamos apenas para nosso quintal e haviam hectares de florestas que podíamos construir, criando fortaleza e outras coisas. As crianças não tem mais isso. Nos espaços naturais que preservamos, muitas vezes estamos tão concentrados em proteger a natureza para que ela não seja danificada, que tiramos um pouco da alegria para os jovens. Eu entendo a tensão, mas se você quiser criar defensores do meio ambiente na próxima geração, você tem que deixá-los confusos com isso. Você não pode pedir para apenas observar a natureza à distância. Então, garantir que o espaço natural e verde esteja disponível exatamente onde eles moram fornece essas opções.

Na sua apresentação para o TED, você disse que crianças tendem a projetar cidades que priorizam brincadeiras e conexão social. De que maneira?

Uma coisa que com frequência escutamos de jovens é que eles se sentem excluídos dos espaços públicos. Eles querem ter espaços que lhes permitam sair em público com seus colegas e assistir o que está acontecendo. Eles não querem ser excluídos, mas eles querem espaços que os acomodem.

Quando criamos espaços que permitem várias gerações se misturarem, pesquisas mostram que conectividade melhora a nossa vida. Mesmo as microinterações com pessoas que você não conhece ajudam a criar conexões. Nossos filhos querem poder ir ao parque e encontrar amigos mas, muitas vezes, em projetos suburbanos, todos são isolados em seus próprios quintais e não interagem. As crianças querem espaços comuns, onde seus pais ainda podem ficar de olho, mas podem se encontrar e se conectar com os outros.

Entendo que você trabalha com crianças e jovens te todas as idades. Como as ideias delas são incorporadas no projeto?

Para trabalhar com crianças mais novas, um professor bem treinado pode observar como as crianças estão interagindo com diferentes espaços ou lugares. Por exemplo, nós trabalhamos em uma pré-escola e os pequenos avaliaram a 19th Street, em Boulder, que não tem ótimas calçadas. Os profesores notaram que as crianças estavam muito interessadas no que estava no chão ao seu redor e no espaço ao redor delas. Eles também notaram que as crianças podem correr em diração à rua se não houver barreira entre a calçada e a rua. Assim, os professores ajudaram a traduzir suas observações de como as crianças estavam usando o espaço e essas informações foram repassadas para o desenvolvimento do projeto daquela rua.

Você acha que há algo nas crianças que os ajudam a pensar sobre problemas de maneira diferente ou a criar novas soluções?

Alison Gopnik (da UC Berkeley) fala muito sobre como as crianças são realmente mais criativas do que os adultos, porque elas não tem estruturas realmente fortes sobre como as coisas devem ser. Então, elas são capazes de pensar de forma criativa. Descobrimos que nossos filhos tem soluções realmente interessantes para problemas que os adultos não poderiam imaginar.

Elas também são extravagants em seus pensamentos. Eu vi isso quando fui a uma conferência na Dinamarca. Elas se divertem e caprichosamente constroem por toda a Dinamarca de uma forma que não temos na maioria dos lugares nos Estados Unidos. Nós nos levamos muito a sério, embora pesquisas mostrem que o envolvimento em brincadeiras proporciona benefícios para a nossa saúde física e mental. As crianças nos lembram disso, se estivermos dispostos a ouvir.

Quem mais além do Growing Up Boulder está fazendo esse tipo de trabalho?

Processos particiativos de planejamento com jovens estão acontecendo nos Estados Unidos, em lugares como na Baía de Monterey no Estado da Califórnia com o professor Derr, ou no Grupo de Pesquisas Ambientais Infantis da CUNY.

Sabemos muito mais sobre os colegas internacionais que estão executando “iniciativas de cidades amigas da criança”, do que na verdade sobre programas similares nos Estados Unidos. Nosso trabalho é baseado na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, que é um tratado de 1989 – que todos os países da ONU, exceto os EUA, ratificaram. A ONU criou escritórios em todo o mundo que têm esse tipo de iniciativa sendo implementada. Em Ghent na Bélgica, por exemplo, existe uma incrível processo de iniciativa que envolve crianças.

Agora o UNICEF USA está iniciando o seu próprio ramo de cidade amiga da criança. E acabamos de descobrir que em Jacksonville, na Flórida, eles também se dizem uma cidade amiga da criança. Eu faço esse trabalho há 10 anos e nenhum de nós sabia sobre o outro. Cidades amigas da criança estão acontecendo em todo o mundo, mas Jacksonville não compareceu a nenhuma das conferências em que participei ou participou de nenhuma das publicações acadêmicas nos mesmos periódicos. Então, há uma desconexão real nos EUA que estamos tentando reunir agora.

Como os participantes adultos respondem à ideia de incluir crianças no planejamento?

Algumas pessoas acham que faz sentido, mas a maioria das pessoas que não estão neste campo de atuação são céticas a princípio. No entanto, quando eles realmente começam a interagir com as crianças, ouvem as ideias delas e se envolvem, isso muda o pensamento delas, ao ponto de termos mais solicitações, de departamentos do setor público, do que podemos acomodar. É emocionante ver o poder que isso tem.

Essas ideias criativas são derrubadas por planejadores urbanos?

Sim, claro. Uma questão tem a ver com financiamento e como escolhemos alocar o financiamento. Em nosso estudo, todos os grupos de crianças com que trabalhei, pediram uma tirolesa. Eles também querem grandes áreas de escalada com trampolins. Isso é totalmente factível, por que eu viajei ao redor do mundo e vi isso implementado em outros lugares. Mas eles não tem o financiamento dedicado a isso. Se você perguntar ao departamento de Parques e Recreação, eles dirão que não podem pagar por isso – as cordas arrebentam com frequência e possuem alto custo de instalação. Teríamos que fazer uma campanha de conscientização pública para mudar o pensamento ou o interesse em criar esses epaços. É frustrante, especialmente quando você sabe qual é a melhor prática, mas ela não está sendo implementada.

As pessoas se preocupam com responsabilidade, mas pesquisas dizem que os parques de aventura não são mais perigosos do que um playground tradicional. E ainda assim, as cidades estão aterrorizadas para fazer isso. Existe um excelente trabalho de avaliação de riscos e benefícios liderado pelo Fórum de Segurança do Reino Unido (Play Safety Forum). As organizações podem usar essa avaliação para ajudá-las na criação de precedentes para delimitar as responsabilidades. Se uma organização está realmente interessada em fazer isso, existem muitas formas e estruturas que podem ajudá-las a fazê-lo. Mas eles precisam estar dispostos a dar o primeiro passo.

Qual a sua opinião sobre o envolvimento de crianças e jovens no planejamento urbano? Deixe sua opinião nos comentários!

Esperamos que você tenha gostado do conteúdo de hoje. Para finalizar, vamos compartilhar a apresentação da Mara Mintzer para o TEDxMileHigh.

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