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Apropriação do espaço: a relação entre a mobilidade urbana e os abrigos de ônibus

Autoras: Rayra Cambriai e Letícia Lima

Se você perguntar para uma pessoa a razão dela usar praças ou parques como ponto de encontro ou o motivo de frequentar determinado espaço público com frequência, provavelmente ela não saiba a resposta. Mas inconsciente ou conscientemente, ela prefere utilizar tais lugares por diversas condicionantes, como: fácil acesso, qualidade de serviços, transporte público (metrô, ônibus, trem), dentre outros. Estes fatores estão diretamente ligados a composição da mobilidade urbana e de seus elementos auxiliadores, a qual são agentes cooperadores na busca da qualidade do espaço urbano.

O fato é que existem sim vários motivos para a população se apropriar mais de um determinado local do que de outro. Essa relação está intrinsecamente ligada (também) ao que aquela localidade lhe proporciona de elementos urbanos e com que qualidade isso é feito.

Os elementos urbanos, usualmente chamados de mobiliários urbanos, compõem as cidades há séculos e mudam conforme o ritmo de vida dos centros urbanos para cumprir sua função primária – atender as necessidades do cotidiano. Com o decorrer dos avanços tecnológicos, houveram inovações voltadas aos mobiliários. Por exemplo, há alguns anos se usava os lampiões a gás como fonte de luminosidade, enquanto hoje temos os poste de luz.

Acompanha a gente que hoje vamos te explicar a importância dos mobiliários urbanos na sua rotina e como eles podem ser atrativos, especificamente os pontos de ônibus.

Apesar da nomenclatura, os mobiliários urbanos vão além de decorar e ornamentar a cidade. Os projetos das peças de mobiliário urbano diferenciam e valorizam os espaços públicos, pois estes não são elementos isolados no meio urbano, cada um tem a sua funcionalidade, são de grande necessidade na qualidade de vida da população e na dinâmica da cidade. Sua ausência causa uma experiência incômoda, muitas vezes trazendo um desconforto tão grande que é preferível não sair de casa.

Segundo Mourthé (1998), há uma variação de atribuições distintas para os mobiliários urbanos. Sendo assim, podemos citar alguns elementos:

  • Decorativos, como esculturas;
  • Lazer, como bancos de praças ou mesa de jogos;
  • Publicidade, como outdoors;
  • Comercialização, como os quiosques;
  • E também há os de serviços, onde nele estão inseridos os abrigos de ônibus.

O mobiliário urbano de serviço, como a parada de ônibus, é de extrema importância na mobilidade e é um espaço de interação social. Eles são a porta de acesso para um convite a locomoção dentro das cidades, pois dão acesso ao transporte público. Os usuários destes equipamentos não os escolhem, o serviço lhes é imposto, portanto, procura-se atender o público da melhor forma possível. Afinal tente imaginar quão desprazeroso é esperar pelo ônibus em um lugar que não lhe convida nem a sequer sentar no banco (quando tem).

Mas afinal, qual a finalidade de um ponto de ônibus?

Os abrigos para a população aguardar os transportes coletivos são conhecidos como ponto de ônibus e estão inseridos no campo urbano. Os grandes centros urbanos pelo mundo costumam possuir uma excepcional estratégia para este sistema.


Abrigo de ônibus de Curitiba que ainda hoje é referência.
Fonte: Gazeta do Povo

Sabe-se que no Brasil o direito básico de ir e vir é garantido, como é respaldado na Estatuto da Cidade, por exemplo. Nessa perspectiva, consequentemente dá-se acesso a outros meios cruciais como mercado de trabalho, educação ou até à atividades mais prazerosas como um mero passeio de entretenimento que por fim proporcionará uma melhor qualidade de vida para os moradores locais.

No âmbito Federal, a mobilidade urbana é assegurada pela a Política Nacional de Mobilidade Urbana. Nela, tem-se a definição da infraestrutura de mobilidade urbana, onde na mesma cita que os pontos de embarque e desembarque de passageiros fazem parte do conjunto de serviços que garantem seus respectivos deslocamentos. Dessa forma, pode-se dizer que os pontos de ônibus fazem parte de uma pequena parcela da malha que a compõe, porém de alta relevância para os usuários.

Mas além de uma plástica atraente, é notória também a importância de um projeto de um mobiliário urbano funcional, atrativo visualmente, voltado à acessibilidade e a integração de todos.

Atualmente nos grandes centros urbanos a mobilidade urbana precisa ser a solução de vários problemas e não um entrave, uma vez que é perceptível que há um sistema onde tudo deverá acontecer corretamente e funcionalmente para que haja uma harmonia.

Portanto, é seguro afirmar que no geral, espaços que possuam elementos urbanos que tenham identidade visual impressa em sua composição e dialogue com o entorno onde está inserido, tem mais chances das pessoas se sentirem convidadas a pertencer e se apropriar daquele espaço. A exemplificar isto, temos como base os estudos de Bins Ely (1997) que argumenta existir diferentes funções para o abrigo de ônibus que são:

  1. Conforto na espera considerando o apoio, segurança em geral e proteção contra as intempéries;
  2. Acesso ao ônibus levando em conta a visualização e garantir agilidade entre o abrigo e ônibus;
  3. Informação considerando as informações quanto ao sistema de transporte, informações de segurança e indicativas;
  4. A função social/cultural, que é percebida nas relações dos usuários entre si e nas relações dos usuários com o espaço físico.

Diante do exposto, é observado por Bins Ely também que os abrigos têm relevância social, como expressado por ela em sua tese:

“o abrigo de ônibus introduz o usuário a outro elemento do sistema: o ônibus. E, ao fazer parte de um sistema de uso de toda a população, o abrigo pode ser definido como uma edificação de uso público, tornando-se inevitável que as pessoas se exponham à proximidade umas das outras.” (BINS ELY, 1997, p. 35)

Partido dessas análise, é válido ressaltar também que os mobiliários destaquem uma identidade visual da cultura local. Assim como Ely, há também a visão de Fábio Duarte (2012) perante a gestão urbana da mobilidade. Analisando os dizeres dele, notou-se que a malha da infraestrutura urbana é composta por:

  1. Planejamento das vias públicas;
  2. Formas de pagamento para adquirir os tickets de acesso ao ônibus;
  3. Terminais de embarque e desembarque;
  4. Pontos de Ônibus.

Diante de toda essas observações, é seguro afirmar que os abrigos de ônibus necessitam atender primordialmente ao conforto na espera, informações pertinentes aos itinerários e linhas fornecidas, além de facilitar o acesso ao transporte público.

Para aprimorar o sistema, pode-se inserir também uma marcação no piso, apontando o local onde deverá ser feito o embarque. O desembarque também pode ser melhorado com plataformas de altura necessária a realizar a integração do abrigo com o ônibus.

Mas…. e o que pode ser feito dos pontos de ônibus para torná-los atraentes, tendo em vista que é um sistema de uso de toda a população?

A princípio eles deverão possuir um sistema auto explicativo, ou seja, fazer com que o usuário do ponto de ônibus não se sinta perdido e procurando informações de terceiros para tentar se locomover na cidade.

Por exemplo, utilizar aparelhos como painéis ilustrativos e interativos que indiquem a rota e horário do transporte, fazem com que uma pessoa que esteja adentrando no abrigo pela primeira vez não fique desnorteada. Ou os assentos de espera serem criativos. Englobar outros modais, como bicicletas, faz com que haja uma interação modal rica e mais democrática também.


Bancos de Bremen (Alemanha). O conceito, projetado por AAS Gonzalez Haase, foi inspirado na coluna cervical. Os bancos rosa também estão inseridos numa área com muitos hospitais. Com 26 metro de extensão cada, sua parte traseira serve como bicicletário.
Fonte: AAS Gonzalez Haase

Outra característica importante que um abrigo de ônibus pode oferecer é a identidade visual, seja na expressão da cultura local ou apenas para servir de localização e saber em qual região da cidade você se encontra.

Por exemplo, em São Paulo foi desenvolvido quatro conceitos de abrigos. Para a região mais modernas da cidade tem-se o conceito High Tech; Já para áreas onde a expansão deu-se de forma espontânea criou-se o conceito Brutalista; Nas áreas onde se quer valorizar o entorno é o  Caos Estruturado; E por fim, para causar menos impacto nas localidades mais marcantes e históricas, há o conceito de abrigo Minimalista com Ginga.

Fonte: Mobilize

Dependendo da localização do ponto de ônibus no mundo, há lugares em que a espera por tal transporte é extremamente longa e cansativa, já em outros locais a espera é mais rápida e prazerosa. Não importa qual será o tipo de espera, os abrigos devem ser projetados com função ser aconchegante e esteticamente convidativos.

E na sua cidade tem algum mobiliário urbano atrativo? Os pontos de ônibus da região de onde você possui alguma das características que foi citada? Conta para a gente nos comentários!

Referências:

BINS ELY, Vera Helena Moro. Avaliação de Fatores Determinantes no Posicionamento de Usuários em Abrigos de Ônibus a Partir do Método da Grade de Atributos. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção), Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1997.

BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Estatuto da Cidade e Legislação Correlata. 2ª Ed. Brasília: Senado Federal, 2002.

BRASIL. Lei nº 12.587, de 03 de janeiro de 2012. Política Nacional de Mobilidade Urbana. Brasília: Senado Federal, 2012.

DUARTE, Fábio. Introdução à Mobilidade Urbana. Curitiba: Juruá, 2007.

DUARTE, Fábio. Planejamento Urbano. Curitiba: InterSaberes, 2012.

MINGUET, Josep Maria. Arquitectura Del Paisaje: Mobiliario Urbano. Barcelona: Instituto Monsa de Ediciones, 2007.MOURTHÉ, Claudia. Mobiliário Urbano. Rio de Janeiro: 2AB, 1998.

1 comment on “Apropriação do espaço: a relação entre a mobilidade urbana e os abrigos de ônibus

  1. luciana pires

    Muito bacana o texto! Já vi um ponto de onibus em Dublin com uma máquina de pegar ursinho (no local onde geralmente tem propaganda).

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