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“A curva livre e sensual do corpo da mulher”, mas… onde estão as mulheres na Arquitetura?

Autoras: Letícia Lima e Rayra Cambriai

Você possivelmente conhece o Oscar Niemeyer, um ícone da arquitetura brasileira, onde em suas obras monumentais e cheias de formas ele atribui (de uma forma até poética) as inspirações curvilíneas de seus projetos às características marcantes do Brasil, entre elas, às mulheres. Mas… você já ouviu falar ou conhece algum nome feminino da Arquitetura?

Nos dias de hoje, onde mais de 62,6% (CAU, 2018) dos profissionais de arquitetura do Brasil são mulheres, não há tanta representatividade na arquitetura no cenário nacional e internacional. Mas será mesmo que as mulheres não produziram e continuam não produzindo obras que são dignas de destaque?

Hoje, 08 de março, mundialmente conhecido como Dia Internacional da Mulher, é uma data oficializada pela Organização das Nações Unidas em 1975. No entanto, sua celebração é comemorada desde o início do século 20, tempos estes que foram marcados por muitos protestos, pedido de igualdade de gênero e reivindicação de direitos das mulheres.

Um exemplo foi a grande passeata pelo direito de voto das mulheres que ocorreu em 1909 na cidade de Nova York. Ou quando um grupo de mulheres se manifestou contra a fome e a Primeira Guerra Mundial (esta manifestação deu início ao movimento ao que seria o pontapé para da Revolução Russa).

A data está diretamente ligada a momentos que o engajamento de mulheres revolucionaram seu tempo. Sendo assim, podemos dizer que o Dia Internacional da Mulher é muito mais que uma data comemorativa, é um dia político para relembrar da luta feminina e se questionar como está a situação das mulheres hoje.

Dentro da Arquitetura não é diferente. As mulheres também tiveram que revolucionar o seu tempo e conquistar o seu espaço na academia e escritórios de arquitetura. Neste dia que homenageia as mulheres, nada mais justo do contar a história de algumas arquitetas. Vem com a gente que hoje nosso objetivo é trazer visibilidade e o devido reconhecimento àquelas que atuaram em diferentes ramos e contribuíram na sociedade, especificamente para o mundo da Arquitetura!

Talvez você já até tenha se debruçado e apreciado fisicamente algumas obras arquitetônicas projetada por uma mulher sem saber. Isto é bem comum de acontecer, pois a presença de registro das mulheres na história é muito escassa, o que não significa que não houve mulheres produzindo. Se fizermos uma breve pesquisa, é fácil perceber a ausência delas em materiais bibliográficos e na participação de grandes obras.

Diante disso, fica fácil perceber que as mulheres sempre estiveram lá, porém em alguns casos elas não eram mencionadas e/ou não recebiam os devidos créditos, sendo estes atribuídos a outros.

No entanto, se pararmos para analisar, mesmo hoje em dia com todo esse bombardeamento de informações que nos é fornecido, ainda é preciso fazer uma busca minuciosa para encontrar alguma representatividade feminina. Por este e tanto outros motivos que resolvemos trazer uma breve história de 5 arquitetas que deixaram seu legado na história da Arquitetura. Confira!

Georgia Louise Harris Brown (1918-1999)

Foi a segunda profissional negra licenciada nos Estados Unidos. Georgia era descendente de pessoas escravizadas. Vinda de uma família de classe média, desde a infância já mostrava interesse em desenhos e pintura.

Em 1938, ela iniciou os estudos na School of Engineering and Architecture, na Universidade do Kansas, onde Mies van der Rohe, ex-diretor da Bauhaus, reestruturou o curso com o movimento modernista, o qual teve forte influência na arquitetura de Georgia, como no uso de estruturas metálica e concreto.

Dado o momento histórico, os anos de universidade não foram livres de episódios racistas e sexistas, onde em diversas ocasiões era questionada se não seria melhor que estudasse economia doméstica invés de arquitetura.

Após a formação, ela manteve contato com Mies, trabalhando em seu escritório estrutural favorito, o Frank J. Kornacker Associates (1949). Entre 1949 e 1953, Georgia foi a única profissional do sexo feminino projetando arranhas-céus e outros edifícios modernistas dentro do escritório. Neste período também concluiu o curso de Techniques of Civil Engineering.

Georgia começou sua carreira em Chicago na década de 40, mas movida e encantada pelo modernismo que acontecia no Brasil e pelo discurso propagado pela política populista de Getúlio Vargas, o qual permeava os artigos e notícias no exterior. Por isso, se sentiu motivada a mudar-se para o Brasil no início dos anos 50, onde permaneceu e trabalhou por quase quarenta anos.

Por conta da política trabalhista e por ser imigrante, Georgia não pôde abrir seu próprio escritório de arquitetura ou assinar seus projetos até ser oficialmente registrada no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura – CREA, o que só aconteceu em 1970.

Por conta disso, é difícil dizer quais são as obras realizadas por ela ou quantas são, considerando que seu nome provavelmente não apareceu em todas. Nesse meio tempo, ela prestava serviço para escritórios ao qual era associada nos EUA e trabalhava como calculista e projetista em escritórios no Brasil.

Georgia atuou no período de grande desenvolvimento industrial no país. Com a chegada de diversas empresas estrangeiras e o fato da arquiteta falar dois idiomas (inglês e português), lhe foi proporcionado excelentes oportunidades e espaço de atuação em projetos, como:

  1. Indústria da Kodak Brasil, em São José dos Campos – SP;
  2. Fábrica Ford Motors, em Osasco – SP;
  3. Sede Regional da Pfizer, em Guarulhos – SP;
  4. Parque do Ibirapuera, em São Paulo – SP, onde teve participação em alguns pavilhões temporários;
  5. 860 Lake Shore Drive (1951) em Chicago.

Georgia é um exemplo representatividade negra e feminina na Arquitetura, superando diversas condicionantes históricas que lhe imposta, como a misoginia e racismo, e contribuindo com um grande acervo arquitetônico em território brasileiro, o qual seguem diretrizes modernistas.

Parceiros profissionais: Mies van der Rohe, Kenneth Rodercik O’Neal, Axel E. Schou.


Jane Drew (1911-1996)

Nascida na Inglaterra em 1911, Dame Jane Beverly Drew se formou em Arquitetura pela Architectural Association School of Architecture. Foi membro do Modern Architectural ReSearch Group por longos anos e lá conheceu Maxwell Fry com quem veio a se casar e posteriormente criou uma firma, a Fry, Drew and Partners.

Com seu escritório, atuou no planejamento urbano, com enfoque em países ocidentais do continente africano. Jane tinha um apego humanitário e uma arquitetura com viés social. Por isso, projetou em diversos locais do mundo, tal como em Nigéria, Índia, Inglaterra, Gana, dentre outros.

Muito de seus projetos não tiveram o devido reconhecimento na época, passando muitas vezes sem ser mencionada. A exemplificar isto, temos seus trabalhos com co-autoria do Le Corbusier, onde só ele recebeu o destaque. Sendo assim, podem ser destacados obras de sua autoria:

  1. Universidade de Ibadan (1953-1959), na Nigéria, em que é possível notar o uso de soluções e formas de caráter modernista;
  2. Chandigarh (1966), projeto para construir a nova capital do estado de Punjab em co-autoria com Le Corbusier;
  3. Village Housing in the Tropics (1947), um livro publicado junto com Harry L. Ford;
  4. Tropical Architecture na Zona Úmida (1956);

Jane compunha o corpo dos membro do RIBA e foi também do CIAM. Por sua contribuição para o ramo da arquitetura e urbanismo, há uma premiação que homenageia mulheres da arquitetura por suas notáveis contribuições, chamado de Jane Drew Prize.

Parceiros profissionais: Maxwell Fry, Eduardo Catalano, Le Corbusier, Pierre Jeanneret

Lilly Reich (1885-1947)

Nascida em Berlim, na Alemanha, Lilly mudou-se para Viena para estudar costura após terminar o primeiro grau, pois a profissão de estilista era a única profissão, no campo do design, a qual mulheres eram aceitas na época. Quando formada, voltou a Berlim e iniciou seus trabalhos como designer de moda e móveis.

Em 1920, foi a primeira mulher diretora da organização alemã Deutsher Werkund (deu origem a Bauhaus). Seus trabalhos como designer de moda a levaram para Frankfurt, onde conheceu arquiteto Mies Van der Rohe. Foi nesta época que iniciou-se a parceria dos dois, que durou 13 anos.

Lilly e Mies são conhecidos mundialmente por seus trabalhos de designer e arquitetura. Mesmo não sendo arquiteta de formação, Lilly era autodidata e foi co-autora de diversas obras de Mies, como:

  1. Pavilhão de Barcelona (1929), onde Lilly e Mies foram diretores artísticos na Exposição Universal de Barcelona e como resultado projetaram e construíram temporariamente para a exposição o Pavilhão de Barcelona, anos após a demolição foi encomendada sua reconstrução por conta de sua notoriedade e valor para o modernismo;
  2. Villa Tugendhat (1930), um projeto aclamado por ser um exemplo de planta livre e execução dos princípios modernistas;
  3. As cadeiras Barcelona e Brno (1929), apresentadas ao público pela primeira vez na Exposição Universal de Barcelona, juntamente ao Pavilhão.

Obras premiadas que consagraram o nome de Mies no mundo da arquitetura e do designer, pela execução pura e extrema do conceito modernista, muita das vezes não cita o nome de Lilly.

Em 1930, entrou para a Escola Bauhaus e começou a lecionar, se tornando a primeira mulher a ensinar na instituição, onde também  foi indicada para ser diretora. Em 1939 o estúdio de Lilly foi bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial. Após isto, ela aceitou lecionar sobre design de interiores em Berlim.

As obras de Lilly dentro da decoração e design são de importância inestimável, foram e são fonte de estudo e pesquisa por sua funcionalidade, versatilidade e beleza.


Zaha Hadid (1950-2016)

Nascida em Bagdá no Iraque em 1950, Zaha marcou a história da arquitetura como a primeira mulher, e também a primeira árabe, a ganhar o Pritzker (renomado prêmio no ramo da arquitetura internacional) em 2004.

Formada em matemática pela Universidade Americana de Beirute, no Líbano, e posteriormente em Arquitetura na Architectural Association School of Architecture, em Londres, teve forte vínculo com a arquitetura desde criança, pois viajava pelo mundo com a família e apreciava as obras.

Por volta dos anos 80 abriu seu escritório, Zaha Hadid Architects. Um dos marcos de sua carreira em fase inicial foi no Projeto de Ampliação do Parlamento Holandês. No entanto, somente depois de uns anos após a criação do seu escritório é que veio a ter notoriedade internacional.

Atuou em vários lugares do mundo e por isso é tão difícil escolher qual obra dela mais se destaca. Mesmo assim, é seguro afirmar alguns de seus projetos que mais tiveram (e ainda tem) repercussão, são eles:

  1. Centro Aquático de Londres (2011), criado para as Olimpíadas de 2012;
  2. Guangzhou Opera House (2011), na China;
  3. Centro Heydar Aliyev (2013), no Azerbaijão.
  4. Casa Atlântica (2013), no Rio de Janeiro, em frente a Praia de Copacabana, porém este nunca chegou a ser construído por questões burocráticas.

Zaha faleceu no mês das mulheres (31 de março de 2016) e deixou um legado forte na arquitetura do século 21. Em uma premiação do Instituto Real de Arquitetos Britânicos (RIBA), onde foi a primeira mulher a ser reconhecida por eles, ela discursou:

“[…] Hoje em dia vemos o tempo todo mais arquitetas estabelecidas. Mas isto não significa que seja fácil. Às vezes os desafios são imensos. Houve uma mudança tremenda nos últimos anos e vamos continuar com este progresso. […]”

Parceiros profissionais: Rem Koolhaas, Elia Zenghelis

Lina Bo Bardi (1914-1992)

Provavelmente a arquiteta mais conhecida dentro da academia brasileira e que você possivelmente já viu ou adentrou em algum projeto de sua autoria.

Achillina Bo nasceu em dezembro de 1914 em Roma, onde se formou em Arquitetura, na Universidade de Roma. Depois de formada se mudou para Milão, onde atuou em várias vertentes como arquitetura, design de mobiliário, editorial de revista e afins.

No entanto, por causa da Segunda Guerra Mundial, seu escritório foi bombardeado, bem como vários locais da Itália. Por lá conheceu Pietro Maria Bardi, com quem trabalhou, casou e se mudou para o Brasil.

Em terras brasileiras ela se naturalizou e veio a desenvolver muitos projetos, principalmente em São Paulo. Inspirada pela arquitetura modernista e com caráter antropológico, Lina deixou registro para a história da Arquitetura Brasileira. A exemplificar temos:

  1. Museu de Arte de São Paulo – MASP (1968), seu projeto mais reconhecido e um marco na paisagem paulista;
  2. Casa de Vidro (1986), onde foi por muito tempo sua residência e é um exemplo nítido de sua fonte de inspiração. Hoje abriga o seu próprio instituto;
  3. SESC Pompéia (1982 / 1986), já com uma pegada mais brutalista e industrial;
  4. Teatro Oficina (1994).

Dentre tantas obras, Lina sempre visava a preocupação social e preservava acima de tudo um diálogo entre o espaço construído e as pessoas que ali transitam. Lina foi arquiteta, design, professora, escritora, editora, figurinista, cinegrafista e curadora. Por este e tantos outros motivos, é um ícone feminino da Arquitetura Brasileira.

Parceiros profissionais: Pietro Maria Bardi, Roberto Burle Marx, Bruno Zevi.

E você já conhecia alguma das arquitetas mencionas? Tem alguma arquiteta que lhe inspira e não apareceu na lista? Conta para a gente nos comentários e compartilha a publicação para que outras pessoas as conheçam!

Referências

Livro: Arquiteturas do Patrimônio Moderno Paulista: reconhecimento, intervenção, gestão.

V Seminário DOCOMOMO SP 2017

https://www.ufrgs.br/casacontemporanea/wp-content/uploads/2014/11/ANAIS-LIVRO.pdf

http://www.caubr.gov.br/wp-content/uploads/2018/05/ANUARIO-2018-WEB.pdf

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43324887

http://www.institutobardi.com.br/linha_tempo.asp

https://casacor.abril.com.br/arquitetura/a-historia-da-casa-de-vidro-de-lina-bo-bardi-no-morumbi/

https://www.westwing.com.br/guiar/lilly-reich/

http://www.zaha-hadid.com/people/zaha-hadid/

https://pioneeringwomen.bwaf.org/georgia-louise-harris-brown/

https://www.designweek.co.uk/issues/january-2014/jane-drew-an-introduction/

https://www.britannica.com/biography/Jane-Drew

https://www.dezeen.com/2016/01/14/zaha-hadid-copyright-unpaid-japanese-stadium-designs-tokyo-2020-olympics/

https://www.modernresale.com/blogs/news-feed/tagged/lc2

https://www.archdaily.com.br/br/774669/um-passeio-virtual-pelo-pavilhao-de-barcelona-de-mies-van-der-rohe

https://www.archdaily.com.br/br/891887/representatividade-importa-conheca-31-arquitetas-negras


1 comment on ““A curva livre e sensual do corpo da mulher”, mas… onde estão as mulheres na Arquitetura?

  1. Levi Holanda

    Sensacional, tenho muito orgulho de estudar com várias mulheres, inclusive tenho muito orgulho das minhas professoras na qual são diariamente fonte de inspiração para mim, Profª Carol Soler que é fantástica, Profª Melanie, Profª Andrezza Barbosa, Profª Luana Batista, Minha coordenadora de curso: Profª Monique Bastos no qual é uma profissional excepcional, posso afirmar com toda a certeza que minha gratidão pelo ensinamento delas, a paciência, a dedicação com os alunos me fazem querer ser parecido, e um dia espero ser. Que Deus as abençoe grandemente, elas são vitoriosa, assim como minhas colegas de curso, que tenho o prazer e a felicidade de conviver diariamente, trocar idéias pelos corredores etc, um beijo no coração de cada uma, em especial a Rayra Cambriai, e a Letícia Lima por esse incrível trabalho, através dele puder conhecer um pouco mais sobre algumas arquitetas fantásticas como Zaha Hadid, Georgia Louise nas quais já conhecia algumas obras mas não tanto como puder conhecer através desse maravilhoso trabalho realizado.

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