Cidade

O que é cidade?

Você alguma vez já fez essa pergunta? Ou, já tentou definir o que é cidade? Nós estamos começando hoje uma série de 4 posts destinados ao tema. Iremos abordar assuntos como o conceito de cidade, sua origem e metodologias para sua definição tanto no Brasil quanto no exterior. O post dessa semana vai introduzir o tema e apresentar alguns autores que discutem sobre a elaboração de um conceito de cidade.

Para começar, já avisamos que você não vai chegar ao final desse post com uma frase bonita que pode ser usada como resposta ensaiada sempre que alguém te perguntar o que é cidade. Isso acontece pelo fato de que, apesar a existência de diversas literaturas definindo cidade, seu conceito ainda é considerado obscuro.

Caso você esteja procurando uma definição, estamos reproduzindo aqui embaixo o resultado da busca pela palavra cidade no Google, todavia, informamos que se trata de um conceito limitado sobre o que é cidade.

“Aglomeração humana localizada numa área geográfica circunscrita e quem numerosas casas, próximas entre si, destinadas à moradia e/ou a atividades culturais, mercantis, industriais, financeiras e a outras não relacionadas com a exploração direta do solo.”

Agora que temos a resposta do Google, vamos iniciar a nossa jornada!

Iniciando pela sua etimologia, a palavra cidade tem orige no latim civitatem (também civitas e, no latim antigo, citatem) originalmente com significado de “cidadania, condições ou direitos do cidadão, fazer parte de uma comunidade”, e posteriormente “comunidade de cidadãos, estado”. Também deriva de civis, que significa cidadão.

A imagem acima é de uma propaganda em Hope, uma cidade com 9.790 habitantes (isso mesmo, cidade) em Arkansas, Estados Unidos. Uma cidade com uma população pequena o suficiente para caber confortavelmente dentro de um campo de futebol e que, curiosamente, é a cidade natal de um ex-presidente dos Estados Unidos (se ainda não caiu a ficha de quem é, confere o link na fonte da imagem!).

Mas porque estamos falando dessa pequena cidade?  

Deyan Sudjic, um escritor e atual diretor do Design Museum em Londres,  inicia o primeiro capítulo do seu livro The Language of Cities diz que cidade é uma palavra usada para descrever quase tudo. Um quase tudo que engloba desde uma pequeno assentamento com menos de 10 mil habitantes, como é o caso de Hope, até Tóquio, que é composta por distritos eleitorais, parlamento, prefeitura e com uma população se aproximando dos 40 milhões.

Para o autor, se qualquer lugar pode ser definido como cidade, então o termo corre o risco de não ter significado algum.  Segundo ele, uma cidade é feita por sua população, dentro dos limites de possibilidades que isso lhe pode oferecer e tendo uma distinta identidade que torna a cidade muito mais do que um aglomerado de prédios. Clima, topografia e arquitetura, por exemplo, fazem parte do que cria essa distinção, assim como a sua origem.

Certamente todos nós temos algum entendimento sobre o que é uma cidade, já que vivemos nelas (ou pelo menos boa parte de nós vive) e que, segundo tem sido apresentado em relatórios da ONU, muitos outros viverão. Todavia, conceituá-la é uma tarefa difĩcil tendo em vista o quão complexo é buscar um termo que represente os diferentes tipos de cidades que existiram, existem e que, sem dúvida, existirão.

Segundo o grande historiador americano Lewis Mumford, em sua clássica obra A cidade na História (o autor e obra dispensam qualquer comentário!) uma única definição não pode ser aplicada a todas as manifestações da cidade e nenhuma singular descrição pode cobrir todas as suas transformações, que vão desde o núcleo social embrionário até complexas formas em sua maturidade e a sua desintegração corporal na velhice.

Por aqui já vemos que a ideia de um conceito único não é possível. Marcelo Lopes de Souza, em seu livro ABC do desenvolvimento urbano (que aliás é excelente!) apresenta alguns fatores que também nos ajuda a entender o quão complexo é definir cidade.

“Como não estou falando de um determinado tipo de cidade, em um momento histórico particular, é preciso ter em mente aquilo que uma cidade da mais remota Antigüidade (sic) e cidades contemporâneas como, digamos, Cairo, Nova Iorque e Tóquio, mas também uma pequena cidade do interior brasileiro (…) têm em comum, para encontrar uma definição que dê conta dessa imensa variação de casos concretos.” (SOUZA, 2005, p.24)

Tendo em vista a dificuldade para encontrar uma definição que englobe as cidades de uma forma geral, o autor segue um caminho de aproximação, destacando características que diferentes autores apontam como essenciais para uma cidade, como por exemplo, ser um local de mercado, uma localidade central e um centro de gestão do território.

Assim como ele, Raquel Rolnik, em sua obra O que é Cidade? (outra leitura que recomendamos!), utiliza-se de semelhante estratégia para buscar elementos existentes em cidades independente de tempo e lugar.

Sendo assim, a autora apresenta as seguintes características:

  • Cidade como um imã: local de atração, reunião e concentração;
  • Cidade como escrita: local de memória tanto escrita quanto construída;
  • Cidade política: local de vivência coletiva, apropriação do espaço e necessidade de organização da vida pública;
  • Cidade como mercado: local de produção e consumo.

Bom, até aqui nós abordamos o quão complexo é para se definir cidade e falamos sobre a aproximação que dois autores fizeram com o objetivo de entender características que lhes são comuns e que podem nos ajudar a entendê-las.

E com relação a tamanho? Faz alguma diferença o número de habitantes para a definição de cidade?

Conforme diz Marcelo Lopes de Souza, tamanho não é documento! O autor defende que esse fator por si só não basta para fazer da cidade uma cidade, embora muitos países adotem esse critério para definí-las (falaremos mais sobre isso no terceiro post da série!).

Para ele, apresentar uma certa centralidade econômica e algumas características econômico-espaciais são elementos importantes. Todavia, o que explica esses fatores são:

  • a sua representatividade enquanto mercado;
  • o nível e distribuição da renda; e,
  • características culturais dos consumidores.

Por hoje nosso post para por aqui! No próximo post da série nós traremos diversas definições de cidade elaboradas por autores de diferentes campos de atuação e compararemos com as características apresentadas nesse post.

Esperamos que esse post tenha ajudado você a entender um pouco os motivos que tornam definir cidade uma tarefa difícil, além de identificar algumas características que podemos encontrar em cidades de uma forma geral.

Talvez no futuro nós tenhamos cidades com características completamente diferentes do que está sendo discutido aqui porém, caberá às gerações futuras continuar a busca para se compreender o que é cidade.

Esperamos que você tenha gostado desse post. Deixe um comentário para nós!

Até a próxima!

Referências:

SUDJIC, D. (2017) The Language of Cities. [S.l.]: Penguin.

MUMFORD, L. (19–) The City in History: Its Origins, Its transformations and its prospects. New York: Harcourt.

ROLNIK, R. (1995) O que é cidade? São Paulo: Brasiliense. 4a reimpressão. Coleção primeiros passos: 203.

SOUZA, M. L (2005) ABC do Desenvolvimento Urbano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

VASCONCELOS, P. A. (2015) As Metamorfoses do Conceito de Cidade. Mercartor, Fortaleza, v.14, n.4, Número Especial, p. 17-23. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/mercator/v14nspe/1984-2201-mercator-14-04-spe-0017.pdf>. Acesso em: 09/02/2019.


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